quarta-feira, 7 de julho de 2010

a visao de saramago

José de Sousa Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.
Escritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta foi o único de lingua portuguesa a ser premiado com o Nobel de Literatura, além do Pêmio Camões e o reconhecimento internacional por suas polêmicas posições a cerca da história da igreja e a interpretaçao da bíblia, que segundo ele somente alguns conseguem interpretá-la.
O seu livro Ensaio sobre a cegueira foi adaptado para o cinema pelo brasileiro Fernando Meirelles e muitas de suas obras foram adaptadas sobretudo para o teatro em todo o mundo, sendo comparado nesse quisito somente a Jorge Amado, escritor que ele amava seja pelas convicções comunistas como também afirmou ser merecedor do Nobel antes mesmo dele.
Embora Saramago seja conhecido pelo seu ateísmo e iberismo guarda em sua obra enorme humanismo e alerta o mundo a cegueira, a inércia, a omissão e a perseguição em nome de Deus e do poder e, por isso foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional Cultura e mesmo antes foi um dos maiores contribuidores da Revolução dos Cravos, que além de derrubar do ditador Salasar promoveu uma revolução na Educação Portuguesa.
Autodidata, aos 25 anos publica o primeiro romance Terra do Pecado (1947), Da experiência vivida nos jornais, restaram quatro crônicas: Deste Mundo e do Outro, 1971, A Bagagem do Viajante, 1973, As Opiniões que o DL Teve, 1974 e Os Apontamentos, 1976. Mas não são as crónicas, nem os contos, nem oteatro os responsáveis por fazer de Saramago um dos autores portugueses de maior destaque - missão reservada a seus romances, género a que retorna em 1977.
Dois anos depois de Levantado do Chão (1982) surge o trabalho Memorial do Convento, livro que conquista definitivamente a atenção de leitores e críticos. Nele, Saramago misturou factos reais com personagens inventados.
De 1980 a 1991, o autor trouxe a lume mais quatro romances que remetem a fatos da realidade material, problematizando a interpretação da "história" oficial: O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - sobre as andanças do heterónimo de Fernando Pessoa por Lisboa; A Jangada de Pedra (1986) - quando a Península Ibérica solta-se do resto da Europa e navega pelo Atlântico; História do Cerco de Lisboa (1989) - onde um revisor é tentado a introduzir um "não" no texto histórico que corrige, mudando-lhe o sentido; e O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) - onde Saramago reescreve o livro sagrado sob a óptica de um Cristo humanizado (sendo esta a sua obra mais controvertida).
Nos anos seguintes, entre 1995 e 2005, Saramago publicou mais seis romances, dando início a uma nova fase em que os enredos não se desenrolam mais em locais ou épocas determinados e personagens dos anais da história se ausentam: Ensaio Sobre a Cegueira (1995); Todos os Nomes (1997); A Caverna (2001); O Homem Duplicado (2002); Ensaio Sobre a Lucidez (2004); e As Intermitências da Morte (2005). Nessa fase, Saramago penetrou de maneira mais investigadora os caminhos da sociedade contemporânea.
O mesmo faleceu no dia 18 de Junho de 2010, aos 87 anos de idade, na sua casa em Lanzarote onde residia com a mulher Pilar del Rio, vítima de leucemia crónica. O escritor estava doente há algum tempo e o seu estado de saúde agravou-se na sua última semana de vida.
Saramago foi conhecido por utilizar frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases ocupam mais de uma página usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais.

A carreira de Saramago foi acompanhada de diversas polémicas. As suas opiniões pessoais sobre religião ou sobre a luta internacional contra o terrorismo são discutidas e algumas resultam mesmo em acusações de diversos quadrantes. Uma chama atenção, ao afirmar em 1998 que Marx nunca teve tanta razão como hoje.
Sempre atento às injustiças da era moderna, vigilante das mais diversas causas sociais, Saramago não se cansava de investir, usando a arma que lhe coube usar, a palavra. "Aqui na Terra a fome continua, / A miséria, o luto, e outra vez a fome.", diz o eu lírico do poema saramaguiano "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" (do livro Os Poemas, 1966).
Para os desavisados Saramago não deixa de reconhecer que a "Bíblia tem coisas admiráveis do ponto de vista literário" e "muita coisa que vale a pena ler", destacando, dentre elas, os Salmos, com páginas "belíssimas", o Cântico dos Cânticos, e a parábola do semeador contada por Jesus.
Para quem apenas ouviu falar fica a sugestão: ler Saramago é ampliar a visão a começar pelo O Conto da Ilha desconhecida e Caim, obras que falam da luta do homem contra opressão, o desgnio e a idéia de que não se pode lutar. E, verá que o escritor guarda em sua obra amor pela humanidade.

domingo, 4 de julho de 2010


Mês de Junho, 1996. Eat, drink and love, assim dizia o personagem Álvares de Azevedo de A Lira dos 20 anos que eu havia interpretado no extinto teatro da praça no Bixiga. Nu em cena ao lado da minha fiel escudeira Amilza C. Telles, a gatinha,poeta e musa inspiradora. Fim do ato, fui comer pizza a convite de uma turminha do ABC paulista e, com a mochila de mascate aceitaria uma carona rumo a São Bernardo, onde a familia esperava como de costume no final de noite de domingo. Parada em São Caetano, mais uma garrafa de vinho. Evoé! Lá ia por avenidas e ruas intermináveis, comentários, perguntas a respeito de arte, educação...neblina, lugar longe, familiar pelo sobrenome do Barão, o Evangelista de Souza e as brumas enconbriam, como certamente o fez outrora com as pedreiras,em formas e no brilho de porcelanas, não era Santo André como diziam. Eu Estava em Mauá, a neblina redobrava a imaginação e definia o cenário e tal como fumaça artificial numa cena digna de muitas baforadas de charuto eu, como caliban e ariel presentes na obra de Álvares de Azevedo, agora então ator me via envolto pela nebular cidade que marcaria definitivamente a minha vida e ponto continuando.

A vida é sonho

É certo;
então reprimamos esta fera condição,
esta fúria,
esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha

Que o homem que vive,
sonha o que é,
até despertar.

Sonha o rei que é rei,
e segue com esse engano
mandando, resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte a morte talha de um corte.

E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?

Sonha o rico sua riqueza que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende

e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.

Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.

Que é a vida?
Um frenesi.
Que é a vida?
Uma ilusão,uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos,
sonhos são.

Pedro Calderón de La