Para quem não entendeu o processo, a verdade pode ser decifrada nos sonhos de Alexandre, o grande, o grego, o brasileiro, o baiano...Assim oferecemos o texto que´sintetiza todo o processo do Apolo e que tlaves não foi levado a cena, exatamente por ser para nós, o processo.
ALEXANDRE, O GRANDE, NO PAÍS DO CARNAVAL
PRÓLOGO
OS ESCAFANDRISTAS
Dionísio está no centro da cena com um papiro no qual lê e escreve.
Dionísio:” Não se afobe não, que nada é pra já
O amor não tem pressa, ele pode esperar
Em silêncio, num fundo de armário, na posta-restante
Milênios, milênios no ar..”.
gritos de guerra. Passam os soldados, ficam Alexandre e Hefestiã
(flash)
ALEXANDRE- Até a morte Hefestiã?
HEFESTIÃ- Até a morte.
ALXANDRE- Você é o primeiro amigo, o primeiro e mais querido amigo.
Gritos de guerra .
Dionisio :” ... em vão, tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não que nada é pra já ...” (sai)
CENA 1
O DENTE DO PRÍNCIPE
ARTEMÍSIA- (carregando dois jarros de vinho) Hefestiã !?! (gritando) Ô praga que veio do Hades! (para si) Hefestiã !?! Vou te rachar a cabeça! (Hefestiã aparece andando com a cabeça baixa, fantasiado de bacante) Pra que eu te comprei ? Eu vou te vender!
HEFESTIÃ- (mostra na mão esquerda um dente, e sorri mostrando a falha em sua boca) Caiu hoje! (imita latidos de cães)
ARTEMÍSIA- Feche a boca e jogue no monte para Dionísio, hoje é festa do vinho e ele vai te presentear.
HEFESTIÃ – Não! Não é meu!
ARTEMÍSIA- Eu vou te vender! Anda, corre e atire no monte, senão vou te dar uma surra de vara!
HEFESTIÃ- Não posso jogar.
ARTEMÍSIA- Dê ao deus e me ajude com os jarros, ande! Cão do Hades! Perdão Zeus!
HEFESTIÃ- Eu não vou jogar!
ARTEMÍSIA- Nunca te nascerá dentes no juízo. Dê cá esse dente podre que não corta carne de javali (sorrindo tenta tomar-lhe o dente)
HEFESTIÃ- (ri e chora) É o dente do príncipe, ele me deu de presente!
ARTEMÍSIA- E o seu?
HEFESTIÃ- Dei a ele como prova de amizade!
ARTEM’SIA- Mas o dele caiu?
HEFESTIÃ- Não, mas ele o arrancou...
ARTEMÍSIA- Por Zeus! Não me digas isso a ninguém. Agora atire ao deus Dionísio, senão, já te disse, eu te vendo! Dente se dá aos deuses.
HEFESTIÃ- Ouvi falar que Alexandre é filho de um deus! Se assim for ele é um deus também, dei meu dente à um deus .Hoje é festa do vinho e já ganhei um presente, o dente do príncipe. (som de trovão, Artemísia fica estatelada)
ARTEMÍSIA- Zeus, ambos são filhos teus, não me faças testemunha ocular de mais uma de suas brincadeiras. (trovão, Hefestiã apanha um dos jarros e sai, entra Olímpia)
CENA 2
O SONHO
OLIMPIA- Artemísia... Artemísia... Tive um sonho essa noite, sei que você decifra sonhos. Decifra o meu... Sei que tu podes
ARTEMÍSIA- Se preciso fosse eu iria até o monte Olimpo falar com os deuses para lhe ajudar minha rainha.
OLIMPIA- Então escuta. Sonhei de novo que uma serpente deslizava devagar pelo meu quarto de dormir...Eu a via, mas não podia me mexer, gritar, nem fugir... Suas escamas brilhavam com o reflexo da lua que penetrava pela janela... Por um momento... Desejei que Felipe acordasse e a segurasse, a apertasse com suas grandes mãos de guerreiro... Mas logo a seguir fixei meus olhos nos olhos daquela serpente e como mágica, já não estava mais com medo, sentia-me cada vez mais atraída, fascinada pelos seus movimentos, por aquele elegante silêncio e a serpente entrou sob os cobertores, deslizou entre minhas pernas e meus seios...
ARTEMÍSIA- A possuía leve e fria sem machucar, sem violência... Minha senhora não conte isso ao vento. Sabemos muito bem quem é a serpente, o que dela surgiu.
OLIMPIA- Sonhei também que...
ARTEMÍSIA- O seu sêmen se misturou com aquele que Felipe havia empurrado pra dentro de ti.
DIONÍSIO- Com uma força de touro, com a delicadeza de um javali, antes de tombar, vencido pelo sono e pelo vinho.
OLIMPIA - O que acha que significa minha boa Artemísia?
ARTEMÍSIA- Que Alexandre, seu filho, está vindo aí fazer-lhe perguntas. Significa que do seu ventre de veio com a energia maravilhosa, Lembra minha rainha a história de Aquiles, seu antepassado, foi lhe concedido escolher entre uma vida breve mas gloriosa ou uma longa mas obscura. Escolheu a primeira. Agora o que te digo também não foi sonho, Alexandre e Hefestiã trocaram os dentes, traçando destinos.
OLIMPIA- Trata-se de um destino já traçado?
ARTEMÍSIA- É provável. Alguns homens nascem com uma força diferente, que vem dos deuses. Guarda esse segredo dentro do seu coração até à hora em que a natureza do teu filho tornar-se plena; aí podes manifestar, mas prepara-te para qualquer coisa, até mesmo a perda dele, pois, não importa o que faças, jamais poderá impedir que seu destino se cumpra, que sua fama chegue até os confins do mundo.
OLIMPIA- Obrigada Artemísia.
ARTEMÍSIA- Silencie, aí vem seu filho.
CENA 3
O NASCIMENTO DO MITO
ALEXANDRE- Mãe, tenho perguntas sobre meu pai...
ESTÃO ARTEMÍSIA E O MÉDICO À VOLTA DE OLÍMPIA, QUE ESTÁ DANDO LUZ A ALEXANDRE. DIONÍSIO INTERFERINDO NA CENA MISTURANDO OS PLANOS REAL E MEMÓRIA
DIONÍSIO- Empurre a barriga dela para baixo. Empurre o mais forte que puderes, o menino tem que nascer imediatamente, senão... (com um grito mais alto Olímpia desfalece enquanto se ouve um choro de criança)
ARTEMÍSIA- Tem a cabeleira de um menino de seis meses! De reflexos dourados. Parece um pequeno Eros! Qual a cor dos olhos dele na sua opinião?
MÉDICO- Não dá pra dizer... ora parecem azuis, ora escuros, quase negros...
DIONÍSIO - Talvez seja pela natureza tão diferente dos pais.
MEDICO-( para Olímpia ) Minha rainha eis o filho de Felipe, deste a luz a um menino maravilhoso.
DIONÍSIO - (para o público) Nem todos os segredos precisam ser revelados (joga o cantil para o mensageiro) diga ao rei que a criança se parece com ele. Os olhos são iguais.
MENSAGEIRO- (sai gritando a todos) O príncipe nasceu, o filho do rei nasceu!!!! (a Felipe, de longe) Rei, teu filho nasceu!
FELIPE- Filho? Conta-me como é!
MENSAGEIRO- (desconcertado) Meu rei, a criança é homem, é linda, saudável e forte!
FELIPE- Como sabes? Tiveste a oportunidade de vê-la?
MENSAGEIRO- Não me atreveria meu senhor. Estava no corredor conforme me havia ordenado, quando me disseram “rápido, vai procurar o rei sem demora e dizei-lhe que seu filho nasceu, diz que é homem, que é bonito, saudável e forte.”
FELIPE- Disse se ele se parece comigo?
DIONÍSIO- Parece, os olhos são iguais aos meus.
MENSAGEIRO- (hesitante) Não, não disse, mas tenho certeza de que se parece contigo.
FELIPE- (para os soldados) Mandai os corneteiros tocarem a chamada geral. Quero ver o meu exército alinhado em perfeita formação! Tragam vinho! Quero que todos bebam comigo.
MENSAGEIRO- (interrompendo Felipe) O médico também disse...
FELIPE- O quê?
MENSAGEIRO- Que a rainha está passando bem...
FELIPE- (incomodado) Quando aconteceu o parto?
MENSAGEIRO- Logo ao pôr-do-Sol. Não parei, não comi, nada bebi a não ser a água do meu cantil. Não via a hora de dar-te a notícia!
FELIPE- Dêem de comer e beber ao nosso amigo, o que ele bem quiser. E deixa-o dormir em boa cama, pois ele me trouxe a maior de todas as notícias! (mensageiro sai, ouve-se toques de clarim e entram vários homens de armadura, perfilados)
SOLDADO- (alegre) Estão ansiosos para saber porque os chamastes ó rei, o que queres de teus soldados?
FELIPE- (discursando) Na minha casa, em Pela, a rainha deu a luz um menino. Declaro diante de vós que ele é meu legítimo herdeiro e a vós o confio. O seu nome é... Alexandre!
POVO- (gritando em coro) Alexandre, Alexandre, Alexandre...
TEMPO REAL
DIONÍSIO - O grito é tão forte que sem dúvidas está chegando na morada dos deuses!
ALEXANDRE- Mãe?!...
FLASH
FELIPE- Então, que os deuses protejam meu filho, e façam com que reine depois de mim e que depois dele reinem seus filhos e os filhos dos seus filhos... (a Leonato) Pega! (joga a ele o seu sinete real) Negocia com esses embaixadores, preciso ver meu filho!
DIONÍSIO- (ao público) Música, alegria e vinho. Nasceu Alexandre, o filho do Sonho!
CENA 4
ALEXANDRE NA INFÂNCIA
ALEXANDRE- Mãe!
OLÍMPIA- Filho!
ALEXANDRE- Vou ao Monte Olimpo, quero saber do Oráculo onde está meu pai
OLÍMPIA- Aonde vais Alexandre?
ALEXANDRE- Para o Monte Olimpo com Hefestiã.
OLÍMPIA- Estás louco? O seu pai trará ainda agora um presente para você. Perdeu um dente?
ALEXANDRE- Guardei-o para sempre!
FELIPE- (entrando com um efebo) Mande chamar o filósofo e não esqueça de manter-me informado. Filho, trouxe-lhe um cavalo, mas é muito selvagem, indomável. Mandarei sacrificá-lo. (Dionísio assume o papel de médico)
ALEXANDRE- (para Dionísio) O quê está fazendo?
DIONÍSIO- Estou contando as batidas do coração de seu pai.
ALEXANDRE- O que movimenta o coração?
DIONÍSIO- A energia vital.
ALEXANDRE- E onde é que ela fica?
DIONÍSIO- Isso ninguém sabe, principalmente quando se trata de um coração selvagem e indomável como o do seu pai ou de um cavalo.
ALEXADRE- Aquele cavalo tem um coração assim?
DIONISIO- Igualzinho ao seu (Felipe e Dionisio riem)
ALEXANDRE- Pois então pai escolho ficar com o cavalo, mesmo sendo selvagem posso domá-lo (sai em direção ao cavalo)
DIONISIO- (para Felipe) Quer me ensurdecer? Esse menino vai deixa-lo mais doente, matá-lo
FELIPE- Matar-me?
DIONISIO- É. (sai e ouve burburinhos e relinchar de cavalo, voltando)
DIONISIO- O menino tem a grandeza de Heitor e a valentia de Aquiles meu Rei, pois o calo relinchou, rodopiou e suspendeu a crina, até bufou, um bucéfalo de animal, mas o que parecia impossível aconteceu: Alexandre virou a cabeça do animal para o sol e Apolo interferindo amansou o animal...
ALEXANDRE- (entrando) que não verdade se espantava com a própria sombra. Eu também não gosto de sombras. Gostaria de ter narrado minha façanha.
DIONISIO- (ao público)O que não seria nada se não fosse a minha interferência...(a Alexandre) Como vai chamar o cavalo?
ALEXANDRE- Aquela palavra ... Bucéfalo!
DIONISIO- Bucéfalo! Conhece a história de Heitor? Era domador de cavalos e um guerreiro de alta estirpe.
ALEXANDRE- Prefiro Aquiles!
DIONISIO- Bucéfalo! Aquiles! Cuidado com o calcanhar.(saindo e percebendo um garoto que brinca de soldado) Quem é este menino¬? Alexandre¬, acho que além de um cavalo ganhou um amigo e cuidado com o calcanhar. (sai com Felipe rindo)
CENA 5
AQUILES E PÁTROCLO
FLASH
( Alexandre se aproxima do trono e começa a brincar de rei, entra um menino, com uma espada e uma lanca )
Hefestiã – Queres brincar comigo? O jogo é melhor quando somos dois. Eu enfio a lanca e tu defendes.
Alexandre – Qual o teu nome?
Hefestiã – Hefestiã, e o teu?
Alexandre – Alexandre.
Hefestiã – Ótimo, então fica ali. Eu lanço primeiro e se tu escapar ganha o ponto e será a tua vez de golpear. Mas se não, então eu ganho e passo a atacar de novo. Está bem? ( Alexandre faz sinal que sim e começam a brincar enchendo o palco com seus gritos, quando já não agüentam mais, ofegantes, decidem parar, caem lado a lado no chão, olhando o teto )
Hefestiã – ( sentando ) Moras aqui?
Alexandre – Claro, este palácio é meu.
Hefestiã – ( debochado ) Bobagem, és jovem demais para ter um palácio tão grande.
Alexandre – O palácio também é meu porque é do meu pai, o rei Felipe.
Hefestiã – ( fica em pé, surpreso ) Por Zeus! ( senta-se novamente ) Tu és o filho do rei!
Alexandre - Queres que sejamos amigos?
Hefestiã – Gostaria muito, mas para sermos amigos precisamos trocar alguma coisa como garantia.
Alexandre – Como assim?
Hefestiã – Eu te dou uma coisa e tu me dás outra em troca.
Alexandre – O que me darás? ( Hefestiã revista os bolsos até que encontra algo ) Oh, um dente!
Hefestiã – Isso mesmo ( abrindo a boca e mostrando a falha na boca ) Soltou-se na noite passada e faltou pouco para que o engolisse. Pega, é teu.
Alexandre – ( pegando o dente ) Mas deixa ver o que darei... ( começa a revistar os bolsos mas não encontra nada, Hefestiã fica com a mão estendida esperando o objeto ) não tenho nada aqui... mas... ( põe a mão na boca e começa a balançar um dente, mal contendo as lágrimas de dor, até conseguir arrancá-lo, limpa o sangue na camisa e o entrega a Hefestiã ) aí está, agora somos amigos...
Hefestiã – ( admirado da coragem do amigo ) Até a morte?
Alexandre – Até a morte! ( abraçam-se )
CENA 6
Felipe e Olimpia
(Olympia tenta fazer uma carícia em Felipe, mas ele a repele )
Felipe- Olympia... mande... mande... mande trazer mais vinho!
Olympia – ( explodindo ) É só isso que fazes? Guerrear e beber nos intervalos entre uma guerra e outra? E depois se entregar a todo tipo de excessos em orgias que duram noites inteiras? Enquanto eu me dedico a Alexandre e fico presa neste palácio? Lembra-se qual foi a última vez que fostes ao meu quarto? Pois faz muitas luas que não sabes a cor dos lençóis de minha alcova!
Felipe – ( gritando ) Você quer liberdade para que? Para continuar se dedicando aos cultos de Dionísio? Vós sois a rainha, tens que manter o respeito! Não quero outros homens perto de ti!
Olympia – conheceu-me! Amou-me assim! E agora, repele minhas práticas religiosas! ( perversa e sensual ) Pois saiba que ainda continuo com meus rituais , às escondidas, e que participo de orgias noturnas a Dionísio, bebo vinho e danço até deixar esfarrapadas minhas lindas vestes reais, persigo animais selvagens, até abatê-los, e caio, exausta, sobre um colchão de relva! Enquanto isso, homens se aproximam de mim... com imensos falos eretos... desejando a minha nudez, excitando a minha própria luxúria animal e eu me entrego totalmente... ( Felipe lhe dá um tapa que a faz se calar, ela começa a rir )
Felipe – Cala-te mulher vai-te daqui! ( avança para Olympia mas para ao ouvir Alexandre e Hefestiã chegando a sala do trono, brincando de soldado, com Artemísia atrás )
Alexandre – Estás morto!
Hefestiã – Não, tu estás! ( a algazarra acaba quando Olympia saí correndo pela lateral )
Alexandre – O que deu nela pai?
Felipe – ( disfarçando ) Foi dormir, o que também devias fazer... e seu amigo também. Vá, que amanhã parto para conquistar a ática e vou passar alguns dias sem lhe ver. Até logo meu filho. ( lhe dá um beijo na testa e sai )
Alexandre – ( triste ) Conquistar a Ática? Mas se meu pai conquistar tudo, quase nada irá sobrar para eu mesmo conquistar! ( pensativo ) tomara que ele não consiga...
Artemísia – (entrando) Pare de falar asneiras e vamos, vamos andando para quarto que é hora de criança estar na cama...
Alexandre – Artemísia...
Artemísia – ( impaciente ) O que é?
Alexandre – Quem é aquele efebo que sempre anda ao lado do meu Pai e nunca fala nada?
Artemísia – ( corando ) Isto não te diz respeito, vamos ( saem )
CENA 7
A TESTEMUNHA
( aparece uma menina carregando um grande cesto de pães que parece ser muito pesado, ela tropeça e cai derramando o conteúdo do cesto. Magra, descalça e com os cabelos sujos e desgrenhados, Alexandre lhe devolve o olhar com reprovação, ele vai até ela )
Alexandre – Como te chamas? ( ela não responde )
Dionísio – Talvez não saiba falar... (lendo)
Alexandre – (emocionado ) Eu posso mudar a sorte dela... eu quero mudar sua sorte.
Artemísia – Pode ser, mas lembra-te, que nem por isso o mundo vai mudar. Ainda assim existirá milhares de homens sofrendo em outro local qualquer desse mundo.
Alexandre – Vem comigo. ( ela se abaixa e começa a colocar os pães que caíram no cesto )
Dionísio – ( aproximando-se ) Ela deve falar uma dessas línguas bárbaras, se quiseres falar com ela deverá esperar que fale nossa língua.
Alexandre – Esperarei! ( Alexandre a ajuda a pegar os pães e com cuidado acaricia o seu rosto, ela sorri ) Tens uma beleza diferente, um sorriso lindo, como uma pintura... espera aqui! ( ela como se entende-se faz um gesto afirmativo )
Olímpia (entrando) – Quando tomarás jeito filho meu! ( mudando de assunto ) Dentro de alguns dias vamos receber a visita de uma delegação do grande rei Persa, quero que dê conta do poder do império com quem estamos tratando. ( Alexandre concorda, levanta-se olhando para a menina e depois olha para o pai )
(ARTEMÍSIA OLHA HORRORIZADA A MENINA, PEGA-LHE OS CABELOS COM NOJO.)
Alexandre – De agora em diante ela ficará ao meu serviço, dê um banho nela, mude-lhe as roupas e ensina-lhe tudo aquilo que precisa saber.
Artemísia – Ela pelo menos tem nome?
Alexandre – Não sei, seja como for a chamarei de Leptine.
Artemísia – Bonito nome, muito apropriado a uma menina... se é que embaixo desse sujeira existe uma, vem comigo ( faz um gesto para ela vir, ela entende e a segue ) mas não muito perto menina! Não muito perto! ( saem)
Olympia- Hoje haverá a morte de um da realeza. Que os deuses o recebam bem!
Alexandre – O que está lendo mãe?
Olympia – Safo! Os seus versos são maravilhosos e os seus sentimentos de solidão são tão parecidos com os meus... ( abre o papiro ) Deixa-me ler um verso pra ti. ( com voz vibrante e melancólica, Alexandre e Hefestiã sentam-se aos seus pés como uma criança) “A noite já chegou à metade do seu curso, a lua e as Plêiades já se puseram, e eu jazo em meu leito... Solitária...”
Alexandre – ( depois de um longo silencio, olhando para mãe ) Está chorando minha mãe?
Olympia – Á se pudesse meus meninos, há se pudesse! ( Alexandre levanta, vai dar um beijo na mãe que o beija nos lábios, longa e ternamente, Alexandre sai e deixa-a sozinha olhando pela janela )
Hefestiã - Por Zeus! Embaixadores persas!
CENA 9
OS EMBAIXADORES PERSAS
Sala do Trono, entram os embaixadores persas, barbudos e ricamente vestido, Alexandre está sentado ao trono, sua mãe ao lado, amigos soldados, Alexandre está diferente, como se houvesse envelhecido 10 anos em uma noite
Alexandre - Já devem saber que meu pai se ausentou por motivos de guerra, mas estou em seu lugar como regente e posso lhes dizer que não interessa aos macedônios perturbar a paz.
Arsames – O problema que o grande rei da Pérsia gostaria de resolver, é o relacionamento dos macedonios com os gregos da Ásia. Nós sempre favorecemos a autonomia deles e preferimos que as cidades gregas sejam regidas por gregos... nossos amigos, é claro. Infelizmente estamos falando de uma região de fronteira que sempre foi motivo de atrito e guerras entre nossos povos.
Alexandre – Sei muito bem do que está falando, meu ilustre hóspede. Reconheço que no passado já houve guerras sangrentas entre gregos e persas. Gostaria entretanto de lembrar que o meu país sempre teve um papel de mediador nessas guerras e que somos ligados com os gregos da Ásia pelas origens comuns.
Arsames – ( apreensivo ) Comércio com as cidades gregas que estão sob o domínio persa? E o que oferecerá em troca nessa negociação?
Alexandre – Amizade e produtos que só a Macedonia pode fornecer: a madeira de nossas florestas, magníficos cavalos e vigorosos escravos ( os embaixadores se reúnem e começam a falar uma língua estranha para Alexandre, que chama a sua mãe discretamente para lhe falar em particular, sussurrando ) O que há de verdadeiro naquilo que me mandaste falar mãe?
Olympia – Quase nada.
Alexandre – Então o que ele disse também não era?
Olympia – Quase nada do que ele disse realmente importa.
Alexandre – Mas então, para que serviu essa reunião?
Olympia – Para que nos cheiremos.
Alexandre – Para que nos cheiremos?
Olympia – Pois é. Um verdadeiro político não precisa de palavras, confia muito mais no seu próprio nariz. Por exemplo, no teu entender, ele gosta mais de garotos ou de garotas?
Alexandre – Quem?
Olympia – O nosso hóspede, é claro.
Alexandre – ( ruborizado ) Ora... como vou saber?
Olympia – Gosta de garotos. Fingiu estar olhando as cortesãs, mas na verdade espiava, toda vez que podia e meio de soslaio, Hefestiã!
Alexandre – Hefestiã?
Olympia – Sim, Instruirei que ele se encontre com nosso convidado na cama essa noite. Pode ser que descubramos mais coisas do nosso hóspede do que ele realmente pensa. Quando a ti, fica com nosso convidado por aqui até eu ajeitar tudo.
Alexandre – Mas.. ( Olympia bate palmas, todos começam a se retirar, ela sai abraçada a Hefestiã falando-lhe ao ouvido, deixando somente Arsames e Alexandre na sala ) Caro hóspede, tenho muita curiosidade sobre vossa terra. Me diga, os seus jardins são deveras tão lindo quanto dizem?
Arsames – ( com brilho nos olhos ) O nosso povo tem tradição. Cultivamos plantas locais e exóticas e colocamos nos jardins animais trazidos de todos cantos do mundo.
Alexandre – Já ouvi falar da extensão do império persa! É deverás grande?
Arsames – ( incomodado ) Me impressiona muito como és perspicaz jovens príncipe! . O império persa é maior do que podes imaginar... Mas confesso que sinto medo quando fala dessas coisas
Alexandre – ( sorrindo ) Meu pai diz que os grandes homens devem ter medo, senão não sentirão direito o real sabor das vitórias ( entra Olympia junto com Artemísia )
Olympia – ( para Arsames ) Seus aposentos já estão prontos caro senhor, e creio que gostará de um presente que eu pessoalmente deixei em sua cama.
Arsames – Presente? Muito Obrigado, não sei se mereço, mas agradeço a gentileza.
Olympia – Minha criada vai lhe acompanhar ( Arsames sai com Artemísia) O que conversaram?
Alexandre – Nem deu tempo para tanto, apenas. Coisas para eu poder buscar meu destino, pois a minha jornada já começou. Sei disto agora, sem a menor dúvida. O que não sei, mãe, é para onde me levará e quando chegará ao fim.
Olympia – ( estremecendo ) Isto é algo que ninguém conhece, meu filho, o destino tem um rosto coberto por um negro véu... ( Leptine entre com um cãozinho nos braços, apesar de estar vestida como serva, está linda ) Veja, teu tio mandou um presente para ti. ( pega o cachorrinho de Leptine que faz beicinho por lhe tirarem o cachorro ) chama-se Péritas. É teu, mas terás que tomar conta dele porque ainda não foi desmamado.
Alexandre – ( depois de olhar para Leptine ) Leptine vai cuidar disto. Vai crescer logo e será o meu cão de caça e de companhia. ( entrega o cachorro a Leptine que sorri feliz afagando o cão )Leptine – ( lentamente ) O-bri-ga-da. ( fica brincando com o cão num canto )
Alexandre – É muito inteligente, já está aprendendo nossa língua, Artemísia reclama muito, é rabugenta e mal humorada, mas é uma boa professora para ela.
Olympia – ( maliciosa ) Vais levá-la para cama quando estiver pronta?
Alexandre – ( tímido ) Talvez, mas não foi por isto que a tirei da lama onde a encontrei...
Olympia – Não? E por que então?
Alexandre – Não sei... ( se aproxima de Leptine e lhe afaga os cabelos ) Leptine, realmente não te lembras nada da tua infância? Qual era o teu nome, qual o teu país, e quem eram teus pais? ( Leptine amua-se, e começa a tremer como se um repentino gelo se apodera-se de seu corpo )
Leptine – imbora, dormi, imbora... ( sai correndo com o cãozinho nas braços )
Alexandre – Admiro essas pessoas que não tem pai. Mãe, aonde está Hefestiã?
Olympia – Não se preocupe com Hefestiã, ele é apenas seu amigo.
CENA 09
A PARTIDA DE ALEXANDRE
Alexandre – Papai, o que está acontecendo contigo? Parece-me estar ouvindo um urso que recita versos de Homero!
Felipe – Filho, já soube como impressionou os embaixadores persas, tu és grande demais para este reino. Levará adiante a tua instrução e a tua formação como homem.
Alexandre – Já me viste cavalgar, lutar, caçar um leão. Sei desenhar, conheço a geometria, falo macedônio e grego...
Felipe – Não basta meu rapaz. Sabe como me chamam os gregos, depois que venci aquela maldita guerra sagrada deles, depois que lhes dei paz e prosperidade? Chamam-me Felipe, o bárbaro. E sabes que isto significa? Significa que nunca irão me aceitar como líder e chefe porque me desprezam, embora me temam. Lutei pela Macedônia com fronteiras seguras, por isto, tudo farei para que meu filho apareça aos gregos como grego: na mente, nos hábitos, até mesmo na aparência física. Terás a educação mais requintada e completa que um homem possa hoje em dia receber. Poderás recorrer a mente mais sublime na elaboração dos conceitos, entre todas as que existem no mundo grego do ocidente ou do oriente.
Alexandre – ( debochado ) e quem seria este homem tão extraordinário?
Dionísio – ( sorrindo ) O mais brilhante entre os discípulos de Platão. É Aristóteles.
Alexandre – Poderei levar alguém comigo?
Felipe – que seja então, mas haverá aulas que somente tu poderá assistir, aquelas que te farão um homem diferente de todos os demais. A disciplina será rigorosa e sofrerá os mesmos castigos dos teus colegas se os mereceres.
Alexandre – Quando terei de partir?
Felipe – Em breve.
Alexandre – quanto em breve?
Felipe – Hoje... Mas não traias tuas origens, pois de qualquer forma permanecerá macedônio até a alma. Os filhos de leões são leões.( olha Alexandre nos olhos, e depois de algum tempo lhe dá um longo abraço ).
Alexandre – farei o que desejas.
Felipe - Cuidado com os estudos... não quero um filósofo... quero um Rei!
Alexandre – Como quiseres , Rei Felipe.
Olympia e Dionísio – (em espaços diferentes) “... Dormem os picos das montanhas, dormem mares e florestas. E tu, velas insone na noite, Alexandre! Por onde andam teus olhos, aonde vai teu coração? Buscar lugares longínquos onde se põe constelações? Onde morrem as ondas do imenso oceano? Não pensas em mim, em minha amarga espera. Arde em ti, o fogo que queima no coração dos deuses...”
Entram Dionísio, bacantes e sátiros – orgia e sacrifícios
CENA 10
ALEXANDRE VAI ESTUDAR COM ARISTÓTELES
Alexandre – Acredita mesmo que Péritas gosta de mim? (acaricia o cão)
Aristóteles – Sem dúvida.
Alexandre – Mas isto não implicaria no fato de um cão ter sentimentos, e portanto uma alma?
Aristóteles – ( pára com um ovo quase à boca ) é uma pergunta grande demais para ti. E para mim também. Uma pergunta para o qual não pode haver uma resposta segura. (depois de comer o ovo e começar a descascar outro ) eu te ensinarei a reconhecer as características dos animais, a subdividir as espécies, a usar teus olhos e teus ouvidos, tuas mãos para reconhecer a natureza que o cerca. Está vendo este ovo? O cozinheiro ferveu-o na água e desta forma deteve um processo, mas dentro da casca existia, potencialmente, uma ave capaz de andar, de se alimentar, de se reproduzir. Na qualidade de ovo não é nada disso, mas sabemos que traz gravados as características que uma ave teria. Seu cão é uma destas conseqüências, como eu mesmo sou, e tu também. ( dá uma mordida no ovo ) E como esse ovo também seria, se tivesse a oportunidade de se tornar pássaro ( solta um longo e estrondoso pum ) Ufa! Fi-lo-só-fi-co! Quase quebrei meu próprio recorde! Bem, as aulas acabam de começar. ( os outros avançam e sentam-se em círculo à volta de Aristóteles,, Calístenes pega alguns rolos de papiro e entrega a Aristóteles ) Vejam, tenho um presente para vocês.
Leonato – O que é?
Aristóteles – sabe aquele ovo que lhes mostrei? Comi ainda hoje meia dúzia deles. (solta um pum violento. Risos) essa é a diferença entre os homens e os deuses. Deuses não peidam. Agora abram e verão. ( eles pegam os rolos e começam a desenrola-los )
Hefestiã – ( maravilhado assim como os outros ) A Ilíada! Um presente maravilhoso!
Leonato – O papiro ou o peido?
Hefestiã – A Ilíada que desde há muito desejávamos!
Aristóteles – É uma edição bastante antiga. Ler as façanhas dos heróis do passado é fundamental na educação de um jovem, assim como assistir a representação de tragédias e isso nada tem a ver com flatulências. Concordam comigo?
Leonato – Concordamos é claro! Há uma coisa, no entanto, que gostaria de saber: por que precisamos ser educados como gregos?
Hefestiã – ( debochado ) é isso mesmo, por que não podemos ser simplesmente macedônios?
Aristóteles – ( após a censura dos outros para com Leonato ) Pergunta interessante, mas para responder terei antes de explicar o que significa ser grego. Ser grego é o único modo de viver digno de um ser humano. Atenas não é uma cidade, é a cidade. Vou dar-te Alexandre, uma prova concreta daquilo que estou dizendo. ( acende-se um foco na parte superior, lá está Lisipo trabalhando em uma escultura ) Olha, está vendo aquele homem? Sabes que é?
Alexandre – Não faço a menor idéia.
Aristóteles – é o maior artista que existe atualmente no mundo. É Lisipo.
Alexandre – ( espantado assim como os outros ) O grande Lisipo!... Certa vez vi uma escultura dele no santuário de Hera.
Aristóteles – E sabes o que era antes de se tornar o que é agora? Servente. Trabalhou 15 anos como servente e sabem como se tornou o grande Lisipo? Graças ao regimento da cidade. É a cidade que abre espaço ao talento, que permite o crescimento de cada homem, isso Atenas faz como nenhuma outra.
Alexandre – Por que ele está aqui?
Aristóteles – Já está descendo, ele mesmo poderá dizer ( Lisipo desce e cumprimenta Alexandre )
Alexandre – ( abobado ) Sou Alexandre, filho de Felipe, rei dos Macedônios, bem vindo Lisipo. Fico honrado em conhecer-te.
Lisipo – ( sorrindo ) Eu já sei de tudo isso. Teu pai me encarregou de moldar o teu retrato em bronze. Gostaria de saber quando poderás posar para mim.
Aristóteles – ( olhando para o boquiaberto Alexandre ) Quando quiseres, eu posso perfeitamente falar enquanto o retratas, se isso não te incomodar.
Lisipo – Não, não! Nada disso! Será uma honra para mim ouvir-te.
Aristóteles – Está certo. Bom rapazes por hoje chega. ( eles iam protestar mas um olhar gélido de Aristóteles os faz calar rapidamente, todos saem ficando somente Lisipo e Aristóteles ) O que achas do rapaz?
Lisipo – ( depois de refletir ) Tem o olhar e os traços de um deus!
CENA 11
A escultura de Lisipo
Música incidental, Lisipo trabalha numa escultura do busto de Alexandre, que está sentado enquanto Aristóteles lhe fala, Alexandre olha fascinado a dança dos dedos de Lisipo na argila. Lisipo trabalha como se modelasse um deus. Termina o busto. Alexandre olha petrificado a sua própria imagem, os olhos difusos de misteriosa melancolia, a boca sensual e dominadora e o contorno sinuoso dos lábios. Lisipo senta-se sorrindo e exausto, Aristóteles tão impressionado como Alexandre, toca levemente no busto
Aristóteles – O que achas disto?
Alexandre – Se deus existe... tem as mãos de Lisipo! Acho que o nariz ficou um pouco grande, ao contrario do restante do corpo que ficou pequeno.
DIONÍSIO - Que extraordinário retrato de Aristóteles.
LISIPO- (entrando) Gostas?
DIONISIO - Desculpe-me, não tencionava espiar as tuas coisas. Mas este desenho é magnífico!
LISIPO- Queres ficar com ele?
DÍONÍSIO- Não guarda-o contigo. Talvez um dia tenhas de fazer uma estátua para Aristóteles. Não acha que um grande sábio a mereça mais do que um rei ou príncipe? (Dionísio anota. Leptine entra com o vaso e o derruba, Aristóteles a olha com olhar de reprovação)
ALEXANDRE- E os escravos? Poderia existir um mundo sem escravos?
ARISTÓTELES- Não. Assim como não pode existir um tear capaz de produzir tecidos sozinho! Quando isto for possível, então poderemos passar sem escravos, mas duvido que isso venha a acontecer.
ALEXANDRE- Se o regime democrático das cidades gregas é o único digno de homens livres, porque aceitastes o filho de um rei, e porque és amigo de meu pai, o rei Felipe.
ARISTÓTELES- É melhor um rei grego que salve a civilização grega da destruição, do que uma guerra contínua de todos contra todos, e por fim à escravidão sobre a dominação estrangeira. Do contrário, nunca ter havido dinheiro o bastante para comprar Aristóteles.
Leptine acabara de apanhar os pedaços do vaso, nesse momento entram os outros com uma cabeça de um javali empalhada nas mãos.
Hefestiã- Olhe mestre, aqui está o javali que eu abati na caçada de ontem.
ALEXANDRE- (avançando para Hefestiã, gritando) Já lhe disse fui eu que o abati, eu dei a flechada certeira. (os outros os separam e levam Alexandre embora)
LEPTINE- Desculpem-no, Alexandre anda nervoso ultimamente. Pode ser a falta da mãe... saudades...
ARISTÓTELES- (refletindo) És um jovem de aprimorada cultura insaciável curiosidade, sabes cantar, desenhar e até recitar de cor as tragédias de Eurípides, és um guerreiro bárbaro e furioso, implacável, quando o ardor toma-lhe conta e é instigado a levar a ponta da espada à garganta de quem o afronta. Mas a hora de deixar a solta o jovem leão, ainda não chegou.
DIONÍSIO – Aristóteles terá dito isto realmente?
CENA 12
ALEXANDRE VAI À GUERRA COM FELIPE
FELIPE- (entrando) Alexandre! (Alexandre corre e abraça-o. Felipe para Aristóteles) Como vai velho amigo? Olhe para mim, e me diga o que achas, estou bem?.
ARISTÓTELES- Dificilmente poderias estar pior senhor.
FELIPE- Não tens papas na língua!!!
ARISTOTELES- Sou um filósofo, se quiseres um bajulador, posso dizer onde podes encontrá-lo.
FELIPE- (primeiro tenso, depois soltando uma gargalhada) Está certo, agora ouve-me, já sabes o que vim fazer aqui.
ARISTÓTELES- Creio que sim.
FELIPE- (para Alexandre) Vim buscar-te, vamos voltar para casa.
ALEXANDRE- Palavra de rei?
FELIPE- (assegurando) Palavra de rei! Mas, há de chegar o dia em que te lembrarás desta época com saudade. Eu nunca tive uma sorte desta, não tive cantos, nem poesia, nem sábios discursos e é por isso que estou tão cansado filho, que tanto me pesam os anos
ARISTÓTELES- Não senhor! Creio que ele ainda não está preparado.
FELIPE- A decisão é minha!
ARISTÓTELES- Ainda há muito que aprender.
FELIPE- O rei está dizendo que ele vai!!! (chuta o ar e percebe que estava machucado)
DIONÍSIO – (ao público) então Felipe casou-se mais uma vez... com outra e...
FLASH 1
ALEXANDRE- (à sua mãe) Estás linda, porém seu rosto está pálido... ( Olímpia parece dominar aquela espécie de bacanal com o olhar gélido )
FLASH 2
ÁTALO- (sogro de Felipe, brindando, não menos ébrio do que os demais) Bebo a saúde do casal real, a virilidade e a beleza da noiva. Possam os deuses conceder um herdeiro legítimo ao rei da Macedônia!
ALEXANDRE- (tomado por um de sues acessos de ira) Seu velho idiota, filho de uma cadela! E eu sou o quê então? Um bastardo? Engole o que disseste, senão te esquartejarei como um porco!!! (e desembainhou a espada contra Átalo)
FELIPE- (apontando a espada contra Alexandre) Cala-te! (escorregou e se esborrachou no chão)
ALEXANDRE- (sorrindo) Aqui está, olhai bem para ele! O homem que quer passar da Europa à Ásia nem é capaz de passar de um leito à outro sem ficar de pernas par a o ar.
FELIPE- Eu te mato! Eu te mato!
ALEXANDRE- Já será muito se conseguires ficar de pé. (à Olímpia) Vamos mãe, estava certa, já não há lugar para nós aqui!
CENA 14
MORTE DE FELIPE
DIONÍSIO – (lendo, inicialmente) Seguindo em cortejo, estavam Alexandre, Felipe e seus generais após chegarem ao teatro para assistirem à uma tragédia, se maravilharam com as estatuetas reproduzidas com um impressionante realismo, era um espetáculo magnífico, que o Sol e o dia particularmente claros tornavam ainda mais particular, como programado, quando chegaram ao portal, o rei ordenou que sua escolta se retirasse, pois não queria mostrar-se aos gregos ladeado por guarda-costas como um tirano.
FLASH 3
FELIPE- (vendo seus guardas se afastando) Falta um! Falta um!
ÁTALO- (gritando entre a multidão) Felipe! Felipe...
DIONÍSIO – (narrando ao público) Tudo aconteceu rapidamente, quando o guarda que faltava surge repentinamente no escuro, empunhando uma curta adaga e avança sobre Felipe, fugindo logo a seguir.
FLASH 4
DIONÍSIO - Ao perceber que Felipe feriu-se
ALEXANDRE - Pegai aquele homem! Pegai aquele homem!
DIONÍSIO - O sangue de Felipe corre copiosamente sobre seu traje, mãos e braços.
ALEXANDRE- (aos soldados) Pegai-o vivo! Quero-o vivo!
DIONÍSIO - O fugitivo após longa correria tropeçou numa raiz de videira e desabou no chão, ao levantar-se os guardas já estavam em cima dele trespassando-o de lado a lado com golpes que o mataram na hora.
ALEXANDRE- (fora de si) Idiotas, eu mandei que o pegassem vivo!
SOLDADO- Mas senhor, estava armado e tentou nos atacar.
ALEXANDRE- Persegui os outros e capturai-os. (olhando o assassino) Conheço-o. Era um dos guardas pessoais de meu pai. Tire suas roupas e pendurai-o em uma estaca na entrada do teatro e deixai-o apodrecer até que sobrem somente seus ossos.(fazendo um toque de chamada geral) Mandem tirar o corpo de meu pai para que seja preparada a cerimonia fúnebre, e tragam as armaduras para mim e (gritando para Dionísio que está ao seu lado escrevendo) Encontrai o sinete real e trazei-o para mim. E enviai sem demora mensageiros que informem que agora eu sou o rei.
DIONÍSIO – Pronto, todo mundo agora vai desconfiar dela, achar que ele matou o pai; não, não escreverei isso. Bem, agora já é rei, pronto. Vamos ao túmulo de Aquiles, onde temos uma sacerdotisa (entra a atriz), estao com voce Ptolomeu, Leonato e é claro, Hefestiã (entram os atores) Ah, nesta peça falta uma Afrodite, vejamos, Leptine serve para o papel.
ALEXANDRE – Mas eu conheci Leptine em outra cena anterior.
DIONÍSIO – Não importa. É teatro. É convenção. Faça de conta que seu subconsciente vê Leptine no papel.
ALEXANDRE – Achei ridículo.
DIONÍSIO – Você é só Alexandre, eu sou Dionísio, o deus do teatro. Fique quieto (faz sinal para a atriz entrar) Fica devendo! Depois a gente acerta!
CENA 14
ARMADURA
Alexandre sozinho no santuário observa as relíquias do lugar. Entra Leptine segurando um balde e uma esponja nas mãos.
ALEXANDRE- Quem és?
Leptine estremece e deixa cair o balde)
ALEXANDRE- Não tenhas medo, sou apenas um peregrino que deseja prestar homenagens à tua deusa. E tu, quem és?
LEPTINE- Meu nome é Leptine.
ALEXANDRE- Tens traços bonitos, de aristocrata, e um olhar bastante altivo.
LEPTINE- Talvez estejas acostumado a ver deusas, escravas da libertinagem dos homens.
ALEXANDRE- E tu não?
LEPTINE- Não, sou virgem.
Alexandre sacudiu a cabeça, como se não acreditasse nos seus ouvidos. Entra um sacerdote e inclina-se em uma estranha reverência.
SACERDOTISA- Sê bem vindo, poderoso senhor. Sinto muito que não tenhas avisado da tua vinda, teríamos organizado uma recepção bem diferente. (faz um sinal para que Leptine saísse, porém Alexandre pede para que fique)
ALEXANDRE- Eu prefiro assim mesmo. Ouvi dizer que neste templo estão guardadas as relíquias da guerra de Tróia. É verdade?
SACERDOTISA- Sem dúvida, temos aqui também uma antiga estátua de Atena caída do céu, que tornava invencível a cidade que a possuía.
Entram Hefestiã, Ptolomeu, Leonato e soldados.
HEFESTIÃ- E onde está a escultura original?
ALEXANDRE- Vamos ao que me interessa... Sabes quem sou?
SACERDOTISA- Sei. És Alexandre, rei dos macedônios.
ALEXANDRE- E sou descendente direto, por parte de mãe, de Aquiles e portanto, herdeiro. Assim sendo, quero a armadura dele para mim.
SACERDOTISA- (empalhedecido) Senhor...
PTOLOMEU- Ora essa. Nós deveríamos acreditar que esta é a cítara de Paris, que estas são as armas de Aquiles construídas pessoalmente pelo deus Hefaístos, e tu não acreditas que nosso rei seja o descendente direto do Aquiles?
SACERDOTISA- (gaguejando) Não, não! O problema é que se trata de objetos sagrados que não podem...
HEFESTIÃ- Lorotas, só precisas mandar fazer outras armas idênticas. Ninguém vai reparar na diferença. Estás entendendo? O nosso soberano precisa delas, pois pertenciam ao seu antepassado: ‘’uma herança é sempre uma herança’’.
ALEXANDRE- Mandai leva-las ao acampamento, deverão ser erguidas diante de exército como estandarte antes de cada batalha. E agora voltemos, a visita acabou.
Os generais saem e Alexandre ainda observa Leptine.
SACERDOTISA- (ao ouvido de Alexandre) Todas as noites, logo após o pôr-do-sol, banha-se no mar perto da foz do escamandro.
Alexandre nada diz, o Sacerdote sai. Os atores estão parados por 20 segundos, entra Dionísio)
DIONÍSIO – A cena vai mudar , vao seguindo o que eu disser.
CENA 16
À CAMINHO DO TÚMULO DE AQUILES
DIONÍSIO - Leptine tira a roupa, tira a roupa, desata os cabelos à luz do luar e entra na água.
ALEXANDRE- És bela como uma deusa.
DIONISIO – Isso!
LEPTINE- (cruzando os braços sobre o peito para esconder os seios) Não me faças mal
ALEXANDRE- Dizem que a Afrodite esculpida encobre o peito desse mesmo jeito. Até Afrodite é recatada... Não tenhas medo. Vem.
Leptine aproxima-se lentamente.
ALEXANDRE- Leva-me até o túmulo de Aquiles.
DIONISIO – veste-se.
LEPTINE- Vem comigo.
DIONISIO – Saem de mãos dadas
ALEXANDRE- Sinto o espírito do herói a penetrar-me. Somente aos deuses são concedidos momentos como este.
HEFESTIÃ - Foi aqui que Aquiles ficou sentado, a chorar a morte de Pátroclo. E foi aqui que sua mãe oceânica deixou as suas armas feitas por um deus.
LEPTINE- Então tu acreditas?
HEFESTIÃ- Sim, acredito.
LEPTINE- Mas por que, no templo...
ALEXANDRE- Aqui é diferente. É noite, as vozes distantes e nesta altura apagadas ainda podem ser ouvidas. E tu resplandeces sem véus diante de nós.
LEPTINE- És realmente um rei?
ALEXANDRE- Olhe para mim. Quem achas que sou?
LEPTINE- És o jovem que às vezes aparecia nos meus sonhos quando eu dormia com minhas companheiras, no santuário da deusa. O jovem que eu teria gostado de amar
HEFESTIÃ- Amanhã partiremos e dentro de poucos dias teremos de enfrentar uma dura batalha...
LEPTINE- ...Então, se quiseres, encontra prazer em mim, sobre esta areia ainda morna...
ALEXANDRE- Talvez eu vença ou, quem sabe, morra...
LEPTINE- ...E deixa que te aperte em meus braços, mesmo que mais tarde venhamos a lastimar devido à saudade...
ALEXANDRE- Mas antes farei uma grande homenagem a Aquiles: uma Festa! Tragam vinho!
DIONISIO - Entram mulheres carregando Aquiles, e logo após os homens entram alegres, bêbados com taças de vinho, voces deste lado, elas daquele... eu vou junto. Agora Alexandre despede-se e imita a posição de Aquiles. Hefestiã faz o mesmo torno da tumba de Pátroclos. Em volta de Alexandre todos gritam:
_ Alalalái!!!
LEONATO- Que ator extraordinário!
PTOLOMEU- Achas?
LEONATO- Sem a menor dúvida.
HEFESTIÃ- É o poder do teatro, faria muito bem outras papéis, não no meu lugar, pois estou muito bem no meu papel!
PTOLOMEU- (sarcástico) Parece que o conheces muitíssimo bem.
ORÁCULO - Nem sempre é possível entender o significado profundo que o ocultam.
ALEXANDRE- Talvez estejas certo. Acredito ser Aquiles revivido e Hefestiã, um novo Pátroclos.
HEFESTIÃ- Neste momento todos acreditam.
ALEXANDRE- Brindemos à vitória!
DIONISIO – Todos brindam e saem embriagados e gritando, e o público, é, vocês aplaudem! Obrigado! O Nó Górdio é a próxima cena ( Senta-se, observa e escreve)
CENA 15
O NÓ GÓRDIO
ATOR 1 - Enfrentaremos o exército de Dário aqui em Górdio.
PTOLOMEU- Em Górdio? Sabes o que há aqui?
DIONÍSIO- Sabe, ele sabe. Há um nó. Um antigo oráculo da grande mãe dos deuses diz que quem destrinçar aquele nó será o senhor da Ásia.
ALEXANDRE- Quero arriscar-me nessa façanha.
DIONÍSIO -. Todos já sabem se recuar do desafio, todos pensarão que não tens confiança em ti mesmo, que não acreditas poder vencer o grande rei.
ALEXANDRE- Cala-te! ( Voltando ao personagem)Na verdade eu já controlo esse nó, pois o conquistei com a força de minhas armas, mas também preciso desatar o símbolo, pois do contrário a coisa poderia não bastar e...
DIONISIO - O nó é o sinal da perfeição absoluta, da completa harmonia, do confluir das energias primitivas que criaram a vida na terra . Tu desatarás o nó e dominarás a Ásia e o mundo inteiro.
ALEXANDRE- Então, levem-me até o nó. (Empurra Dionísio)
Caminham em direção ao nó Górdio
ATOR 5 - É provável que os sacerdotes tenham feito de tudo para simplificar as coisas para Alexandre, evitando expô-lo à humilhação de um fracasso.
ATOR 6- Eis aí o nó de Górdio.
Pessoas começam a se aglomerar emvolta de Alexandre, que tenta em vão desatar o nó.
ATOR 7 - Será que ele conseguiu?
ATOR 8 - Dizem que é impóssível.
ATOR 9 - Todos que até hoje tentaram, fracassaram.
Alexandre começa a ficar aflito quando ouve uma voz a sussurrar.
DIONÍSIO- A espada! A espada! (Ri compulsivamente)
Alexandre lentamente retira sua espada da bainha. Todos estão apreensivos. Alexandre corta o nó Górdio
PTOLOMEU- (gritando) O rei destrinçou o nó de Górdio! O rei é o senhor da Ásia.
Aplausos do povo.
DIONISIO – ( Recompondo-se) Esse diretor é foda, arrasou nesta cena! Caralho! Ufa!
CENA 16
MENSAGENS
ALEXANDRE – Sou Alexandre, o grande. Hefestiã, recite-me a Ilíada
DIONISIO – O canto 7. É este que ele mais gosta.
HEFESTIÃ – (... recita) ao final...
Alexandre está com Hefestiã, entram dois de seus guardas:
PTOLOMEU – Meu Rei, mensageiros da Pérsia.
ALEXANDRE – Da Pérsia?
PTOLOMEU– Querem falar contigo.
LEONATO – Trazem presentes.
ALEXANDRE – Presente de Dário? Deve éster com medo do confronto.
PTOLOMEU– – Meu Rei, é... Desconfio que não se trate disso.
LEONATO – Deve-se tratar de alguma brincadeira.
PTOLOMEU– – Ou não.
ALEXANDRE – (senta) Então mande-os entrar. Quero receber os presentes de Dário.
Entram os mensageiros.
MENSAGEIROS - APOPO – CACACA – CACODAIMUNUS
HEFESTIÃ – (empunhando sua espada) Que língua é essa? Essa não é uma língua Persa. Manda trazer o tradutor!
LEONATO – Tradutor para o Rei!!!
HEFESTIÃ – (para o tradutor) Temos uma surpresa, parece ser uma brincadeira.
MENSAGEIROS – (para o tradutor) APOPO – CACACA – CACODAIMUNUS.
DIONÍSIO – (rindo) Meu Rei creio que estamos vivendo um festival de piadas, recebi essa carta ainda hoje, acredito que também lhe trará aborrecimentos. (entrega a carta para Alexandre)
ALEXANDRE – (lê apenas um trecho, mas já é o suficiente para ficar irritado) Que brincadeira é essa?
Entra o povo, que até então ouvia tudo do lado de fora do palácio.
DIONÍSIO – Creio que no momento seja mais propício receber os presentes e depois ler a carta.
ALEXANDRE – Pois bem.
MENSAGEIRO 1 – CACODAIMUNUS.
DIONÍSIO– Uma bola, para se divertir ao invés de brincar de soldado.
MENSAGEIRO 2 – CACACA
DIONÍSIO– Algumas moedas de ouro para cobrir as despesas da guerra.
MENSAGEIRO 3 – APOPO
DIONÍSIO– O chicote é para receber umas boas chibatadas, como se faz a uma criança travessa.
ALEXANDRE – (dá uma chibatada no chão) Leia a carta! (outra chibatada, agora para os mensageiros) Vocês estão dispensados, cuidem para que cheguem vivos às suas moradas. (para o tradutor) Agora leia!!!
DIONÍSIO– Meu Rei, bem que eu gostaria de ler, mas eu tenho uma sugestão, temos um aluno de Aristóteles, o melhor dos alunos, está se formando em artes dramáticas, creio que ele poderia transmitir o teor real da carta. Posso chamá-lo?
ALEXANDRE – Como quiser.
DIONÍSIO– Pode entrar garoto.
Entra o ator.
ALEXANDRE – É verdade que és o melhor aluno de Aristóteles?
ATOR – É o que dizem.
ALEXANDRE – É verdade que és o melhor aluno em artes dramáticas?
ATOR – A um ator não cabe dizer, apenas demonstrar.
POVO – Oh! (palmas)
ALEXANDRE – Então quero que leia esta carta , como se você mesmo tivesse escrito.
ATOR – (muito calmo) Onde está a carta?
Tradutor lhe entrega a carta , lhe fala algo no ouvido e volta.
ATOR – (gestual) Posso usar seu trono?
Povo levanta-se abismado. Alexandre empunha sua espada.
ALEXANDRE – Pode. (ri)
POVO - (admirado) Oh!
Ator, no trono, exercita sua voz e se concentra.
ALEXANDRE – E então o que diz a carta?
ATOR – Ah, a carta. (começa a lê-la)
CARTA: “Se a ti os deuses tivessem dado um corpo proporcional às tuas ambições, o Universo seria pequeno para ti; com uma das mãos tocarias o Oriente e com a outra , o Ocidente, e não contente ainda, seguirias o Sol para saber onde se deita”.
Tua ambição é maior que tu. .
Nada existe que seja tão forte que não possa ser destruído.
Que temos a discutir contigo?
Nunca pusemos os pés em tuas terras e ignoramos a tua presença e o que és!
E para que saibas que espécies de gente somos queremos dizer-te que dos deuses recebemos como dádivas preciosas uma junta de bois, um arado, uma flecha, um dardo e uma taça. Estes são os nossos instrumentos de paz e de guerra.
Tu te vanglorias de que vieste em nome da justiça para exterminar os ladrões; és o maior dos ladrões da terra.
Que pretendes fazer de tantas riquezas que somente aumentam tua sede? Na abundância tiveste como companheira a solidão..
E quando pensares que estamos longe, hás de nos ver sempre a teus calcanhares,
Podes então escolher: ter-nos como amigos, ou como inimigos.”
Ao fim da carta Leonato e Ptolomeu empunham suas lanças ao ator, o povo levanta-se assustado, volta o tradutor que ouvia à distância.
DIONÍSIO– O garoto é bom. (puxa a palmas, o povo o acompanha)
ALEXANDRE – És um bom ator, um grande comediante, mas também fui aluno de Aristóteles e aprendi sobre tudo o dom da tragédia. (para os guardas) Matem-no! (música)
Povo sai de cabeça baixa, o ator mantém sua pose e ,saindo, os generais o acompanham, fica em cena batendo palmas.
DIONÍSIO– Agora no calor do Egito e nos Oásis do deserto ele sentiu o peso da responsabilidade como rei e olhou para si mesmo, viu uma luz em outros olhos!
CENA 17
ALEXANDRE É FILHO DOS DEUSES?
Hefestiã entra na tenda de Alexandre, onde Leptine o banha.
ALEXANDRE – Sou o senhor da Ásia!
HEFESTIÃ- O que foi que o deus Amon te disse?
ALEXANDRE- Chamou-me de filho.
Hefestiã apanhou no chão a esponja que Leptine deixara escorregar das mãos, e a devolveu.
HEFESTIÃ- E tu, o que lhe havias perguntado?
ALEXANDRE- Perguntara-lhe se todos os assassinos de meu pai estavam mortos, ou se algum deles sobrevivera.
Hefestiã cobre os ombros do rei e o massageia.
HEFESTIÃ - (irônico) Ainda queres bem ao teu pai Felipe, agora que te tornaste um deus?
ALEXANDRE- Se não fosses tu a fazer essa pergunta, pensaria que são palavras de reinos inimigos... Dá-me a tua espada.
Hefestiã desembanhou a espada e a entregou, Alexandre a pegou e cortou a pele do braço.
ALEXANDRE- E o que é isso? Não é sangue?
HEFESTIÃ - (surpreso) Sim, é de fato.
ALEXANDRE- Então é sangue não é, e não o “ ícor , que dizes correr nas veias dos beatos” (irritado) e sendo assim meu amigo, procura compreender-me sem me ferir à toa, se me quiseres bem.
HEFESTIÃ -O que faremos agora?
ALEXANDRE- Vamos voltar a Tiro.
HEFESTIÃ- E depois?
Alexandre lhe dá um pouco de vinho.
HEFESTIÃ - Ainda pensas em Pela? Ainda pensas em teu pai e tua mãe, e no tempo em que éramos crianças e corríamos a cavalo pelas colinas da Macedônia?
ALEXANDRE- (pensativo) Sim, muitas vezes, mas não com imagens de pessoas e coisas que aconteceram há muito tempo. A nossa vida é tão intensa que cada hora vale por um ano.
HEFESTIÃ - (irônico) Quer dizer que ficaremos velhos maios cedo?
ALEXANDRE- Talvez... Ou talvez não. A lamparina que mais intensamente brilha na sala é fadada a ser a primeira a apagar-se, mas todos os convidados irão lembrar quão bonita e agradável fooi a sua luz durante a festa.
Os dois saindo.
ALEXANDRE- E, talvez, esse também seja o destino das estrelas que mais fulgidas brilham no céu, que tua noite seja serena meu amigo.
HEFESTIÃ - E a tua também, Alexandre.
HEFESTIÃ- Más notícias?
ALEXANDRE- Não. Aliás, deverias estar muito feliz, pois minha mãe diz que sou filho de um deus.
HEFESTIÃ- Mas não me perece ter cara de um homem feliz.
ALEXANDRE- Tu o serias?
HEFESTIÃ- Alguns amam o Rei Alexandre. No meu caso, uma vez que é o filho de Amon, também o filho de Zeus.(enquanto fala, Alexandre entrega a carta da mãe para Hefestiã que lê rapidamente) A rainha, sua mãe te ajudará a assumir o teu novo papel.
ALEXANDRE- Lembras o dia em que fugi de Pela, o dia que meu pai queria matar-me?
HEFESTIÃ- Claro, eu estava lá.
ALEXANDRE- Fugi com minha mãe rumo ao Epiro, e paramos para dormir em um bosque, de repente, lá pelo meio da noite, vi levantar-se e afastar-se no escuro: caminhava como se estivesse pairando Por cima do chão, e chegou a um local onde havia uma antiga imagem de Dionísio coberta de hera, pude vê-la, tão bem quanto estou te vendo, suscitar da terra uma enorme serpente, vi-a chamar ao som de uma flauta, uma orgia de sátyros e de menadis.
HEFESTIÃ- O mais provável é que estivesse sonhando.
ALEXANDRE- Nada disso. De repente senti o toque de uma mão no meu ombro, e era ele, estás entendendo? Mas um momento antes estava tocando aquela flauta envolvida por uma serpente gigantesca. Eu estava lá. Como explicas isso?
HEFESTIÃ- Não sei. Há pessoas que andam dormindo, Olímpia não é uma mulher como as outras.
ALEXANDRE- Quanto a isso não tenho duvidas, ela quer governar, quer exercer o poder e não será fácil detê-la.
HEFESTIÃ- (mudando de assunto) Quais são os teus planos?
ALEXANDRE- Ide dormir, amanhã ao anoitecer, quando o exército persa já estiver à vista, atacaremos. Junte os homens, estamos prestes a partir.Até a morte?
HEFESTIÃ – Até a morte (quase beijam-se)
DIONÍSIO – O amor não tem pressa ele pode esperar: Eu disse no começo não lembram?
CENA 18
QUEM MATOU FELIPE?
(Uma jovem em um ritual em volta de um túmulo. Dionísio assiste à cena)
LEPTINE- Quem está aí?
ARISTÓTELES- Alguém que procura a verdade.
LEPTINE - Deixe-me te ver então.
ARISTÓTELES- Sou Aristóteles de Estagira.
LEPTINE - O grande sábio? O que o traz à este triste lugar?
ARIST;OTELES- Já disse, procuro a verdade.
LEPTINE - Qual verdade?
ARISTÓTELES- A verdade sobre a morte do rei Felipe.
LEPTINE - Creio que não poderei ajudar-te.
ARISTÓTELES- Por que vens homenagear este túmulo, no escuro? Aqui está enterrado Pausânias, o assassino do rei.
LEPTINE - Porque era o meu homem e eu o amava. Ele já me dera o presente de bodas e estávamos para nos casar.
ARISTÓTELES- Já ouvi à respeito. Foi por isto mesmo que vim aqui. É verdade que ele era o amante de Felipe?
LEPTINE - Eu... Eu não sei.
ARISTÓTELES - É verdade?
LEPTINE - Sim, é verdade.
ARISTÓTELES- Toda a verdade?(a jovem não responde)
LEPTINE - Pausânias nunca foi amante do rei
ARISTÓTELES- Parece que estás a par de muita coisa. Como podes?
LEPTINE – Fui à padeira do palácio.
ARISTÓTELES- Leptine! O que me conta não impede que algo assim possa realmente ter acontecido, mesmo que se tratasse de um episódio isolado.
LEPTINE - Não creio.
ARISTÓTELES- Por quê?
LEPTINE - Não, não sei. Se soubesse, talvez pudesse mais facilmente conhecer o motvo pelo qual Pausânias fez o que fez e sofreu o que sofreu. Agora preciso ir, pois do contrário alguém virá procurar por mim.
ARISTÓTELES- Como posso agradecer-te por aquilo que...
LEPTINE - Encontra o verdadeiro culpado, e faça com que eu seja informada.(sai)
ARISTÓTELES- Espere, nem me disse o teu nome...(a jovem já havia desaparecido)
CENA 19
A BATALHA COM DÁRIO
FLASH – Fusão com sons de guerra ao fundo
DÁRIO- (rezando) Ahura mazda, senhor do fogo divino, nosso deus dá-me a vitória, concede-me salvar o império dos meus antepassados. Prometo que se vencer, tratarei meus adversários com clemência e respeito, porque se as vicissitudes da guerra não nos tivesse colocado um contra o outro, teria pedido com toda sinceridade do meu coração a sua amizade e o seu afeto.(soldados macedônios o interpelam)
PTOLOMEU- Senhor, é Dário, nós o pegamos.
ALEXANDRE- Pegaram? Conta-me como.
PTOLOMEU- Rei Dário destruído e preso.
ALEXANDRE- Aquele filho da mãe que quase conseguiu nos cercar. Diga como foi.
PTOLOMEU- O rei tinha a intenção de fugir, mas os soldados persas, cansados de vê-lo fugir, estavam muito desanimados, e acredite, ó rei, não fizeram nenhum esforço para prendê-lo.
ALEXANDRE- Está brincando comigo?
PTOLOMEU- Não me atreveria senhor. Os soldados nos entregaram o grande rei, acorrentado e surrado.
ALEXANDRE- (pasmo) Quero vê-lo agora!(Ptolomeu sai) (sozinho) Covardes!
Dário entra todo esfarrapado, quase nu, com apenas correntes de ouro nos pés e nas mãos.
ALEXANDRE- Então, estamos finalmente frente à frente. O grande rei, o mais glorioso e belo rei em frente ao menino, ao mais atrevido e o invencível rei.
DÁRIO- És um bárbaro.
ALEXANDRE- Como ousa ofender-me?Rei fujão.
DÁRIO- Fugi também é uma tática. O teu mestre não te ensinou isso? Ou será que perdeste esta aula?
ALEXANDRE- Lave esse boca para falar do mestre Aristóteles.
DÁRIO- E eu que pedi ao meu deus , para... Não te darei o gostinho.
ALEXANDRE- (empunhando a espada no pescoço de Dário) Fale seu covarde, ou prefere ter a língua cortada para não mais falar?
DÁRIO- Pedi que me desse a vitória, e prometi tratar-te com clemência e respeito porque, se as guerras não nos tivessem colocado um contra o outro, teria pedido com toda a sinceridade do meu coração a tua amizade e o teu afeto, mas agora retiro o que disse, um bárbaro não merece promessas.
ALEXANDRE- Víbora! Queres que acredite nas tuas palavras?
DÁRIO- São as mais sinceras.
ALEXANDRE- Tire esses trapos! (Dário fica sem entender) Vamos, não me ouviu, tire a roupa!
DIONÍSIO – Esta parte é por minha conta.
DÁRIO- Achas que sou algum efebo?
ALEXANDRE- (numa cris de loucura, começa a gritar)Tira! Tira! (o próprio Alexandre tira a roupa de Dário) (mais tranqüilo agora) Sois realmente belo como dizem (Alexandre também fica nu) Mas nem a tua beleza te salvará de teu destino. (Alexandre pega duas espadas e dá uma delas à Dário) Não serei covarde como foste. Enfrenta-me até a morte e não ouse desistir ou pensarei que perdeste a dignidade e viraste um maricas.
Alexandre se senta no trono do grande rei, e Dário se sente aviltado com a atitude do novo rei. Se lança contra Alexandre)
DIONÍSIO – Cuidado com os símbolos fálicos, aliás onde esconderam eles? (Alexandre de onde estava acertou o peito de Dário num ataque fulminante. Dário cai morto no chão. Alexandre larga a espada e continua sentado no trono nu.
ALEXANDRE- Nada e ninguém me deteve. Pai! Pai! Agora sou o maior rei! Agora sou Alexandre, o grande! Maior do que tu fostes, e que meus filhos sejam maiores do que eu!
DIONÍSIO – Vocês queriam o que? Esta pela é uma peça regida por Dionísio e não por Aristóteles!
Os companheiros entram e vêem o corpo de Dário, sem vida no chão. Entram também as mulheres do reino, e entre elas está Roxana..
ALEXANDRE – Quem é ela?
HEFESTIÃ – Roxana é da realeza persa.
ALEXANDRE – Quero festas e orgias na Babilônia. Mande Roxana vir até mim.
CENA 20
DIONÍSIO – Roxana, bela, mas Persa nunca amou Alexandre como homem, antes mesmo de se entregar a ele, deitou-se com Hefestiã e o filho que carregou na barriga tem para mim dúvidas da paternidade! A bebida, incansáveis batalhas e a morte do mais querido entre os queridos, sede de conquista desgastou o menino Alexandre e foi aqui que ele sonhou maior ainda, porém, o mundo era menor quando Alexandre era o grande. Vamos ao desenrolar da história, à parte séria...
Alexandre chorando tenta matar-se, arrependido, e é impedido pelos seus guardas.
PTOLOMEU – Alexandre está ardendo em febre e solicita um escriba que registre suas memórias. (entra Dionísio)
CENA 21
MORTE DE HEFESTIÃ E ALEXANDRE
( Dionísio está ao pé do leito de Alexandre, escreve e observa a narrativa do Rei Macedônio)
Roxana- (entra correndo, para em frente a Alexandre, um grande sorriso nos lábios) Agora és um Rei completamente feliz. (acaricia a barriga)
Alexandre- (Radiante, depois de trocar olhares com Hefestiã) Por que diz isso, por acaso corre nas minhas veias Icor dos Deuses e sua presença é a confirmação disso?
Roxana- Vou ter um filho, um herdeiro, o filho que tu sempre esperou.(Alexandre corre e a abraça, Hefestiã como se sentindo uma vertigem, se encosta a parede e baixa a cabeça)
Alexandre- (agitado) Tenho certeza de que será um menino e para celebrar esse momento proclamarei grandes festejos, competições, espetáculos teatrais ao estilo grego.
Hefestiã – (mal estar) Imagina histórias representadas em cenários artificiais com homens de verdade que fingem ser os personagens dessas histórias. E aí danças, músicas, cantos...(Alexandre olha para Hefestiã que está no mesmo lugar, parado olhar fixo no chão)
Alexandre - O que é que tem?
Hefestiã- (Pálido) Um pouco de febre e enjôo.
Alexandre- Roxana, manda chamar um médico para Hefestiã.
Roxana- (com olhar gélido) Claro querido... (olhando para a barriga e causando um espasmo em Hefestiã) vamos neném, vem com a mamãe (sai)
Hefestiã- (gritando com Alexandre) Não quero médico nenhum, manda trazer-me uma jarra de vinho que eu mesmo saberei cuidar de mim. (sarcástico) Vá cuidar de seu filho!
Alexandre – Não seja bobo! É meu filho, meu primeiro filho. Fará exatamente o que o médico mandar (entra o médico e Artemísia. O médico começa a apalpar o abdômen de Hefestiã) Agora sim posso dizer que tenho tudo que sempre quis: a Grécia, a Ásia, o
Egito e agora, um filho! Serás o tutor dele, o ensinará tudo que sabes e ele também o chamará de pai. (o médico termina o exame) Então?
Médico- Ao que parece comeu alguma coisa que lhe fez mal, vou receitar um purgante e aí o general Hefestiã terá que jejuar durante três dias tomando apenas água: Pode estar sofrendo de uma hemorragia
Hefestiã – Isso é um absurdo, estou ótimo e...
Alexandre- Quieto! (para o médico) Tens certeza que é um bom tratamento?
Médico- Acho que o melhor dos médicos faria a mesma coisa.
Alexandre- ( Deitando-se debilitado, relembra) Melhor assim. mas não o perca de vista, Hefestiã é teimoso como uma mula e fará de tudo para sair do jejum. Ele é meu amigo mais querido. Estamos juntos desde criança. (enquanto fala acaricia o pequeno pingente no pescoço, o dente de Hefestiã)
Médico – Não receies senhor, farei sarar o general Hefestiã o mais breve possível (Médico a Hefestiã) General, eu não sei se devo, mas como hoje foi um imprevisto eu gostaria de me ausentar por duas horas pois há uma comédia a qual eu gostaria muito de assistir, gostaria de estar lá se isso não lhe incomodar, são só duas horas e...
Hefestiã- Podes ir. Aristóteles deve estar junto ao público com seu olhar crítico. (Artemísia o olha com desconfiança)
Médico – E ficarás de resguardo? Posso ficar tranqüilo?
Artemísia- Muito tranqüilo.
Médico- De qualquer forma estarei de volta em duas horas. (à Artemísia) cuide dele porque vou assistir a maior das tragédias, quer dizer das comédias (sai)
Hefestiã- (à Artemísia) Mande buscar dois frangos e traga-os acompanhados de uma jarra de vinho bem gelado!
Artemísia – O que? Enlouqueceu?
Hefestiã- (gritando) Ande! (Late) Ou agora quem manda te vender sou eu!
Hefestiã- (com voz amarga) Vais obedecer ou prefere ser chicoteada? Dê a ordem para que tragam. (Saindo)
Artemísia- Tragam 1 jarra de vinho bem gelada e dois frangos para Hefestiã. Por Zeus, eu devia mesmo ter te vendido ou trocado por uma cesta de vime! Nem isso, tu não vales uma sandália de tiras, (voltando), ou melhor, devia ter te afogado no mar e te jogado aos tubarões! Não, eu não poderia fazer isso... com os tubarões! Porque nem eles merecem um traste ingrato como tu (deposita a bandeja à frente de Hefestiã) Toma come coisa ruim, tomara que morra de indigestão! (trovão, Dionísio aocorda sonambulando, Hefestiã devora compulsivamente o frango e bebe o vinho, às vezes ri, às vezes para pensativo, até que uma dor súbita o acomete e ele cai ao chão. Parece ter pesadelos onde parece Dionísio com voz sussurrante).
Dionísio – Mais uma taça, Hefestiã, beba o sangue dos Deuses, hoje vais à festa, a alegria e a felicidade te esperam. És o melhor dos satyros. Vem a minha morada (Dionísio retornando, senta-se e adormece)
(Hefestiã caído, dá um grito que coincidi com o estrondo de um trovão, para ampará-lo, entra Ptolomeu, Leonato.
Ptolomeu- Nada mais podemos fazer por ele a não ser prepará-lo para a cerimônia fúnebre.
Alexandre- (Acordando, gritando, empurra Ptolomeu e fica entregue ao desespero) Não, deixai-me, não posso abandoná-lo, não quero abandoná-lo! Pobre amado meu! Não me deixe, não me deixe, não me deixe... Diz-me que isso é um sonho, que você daqui a pouco vai acordar e sorrir.
Artemísia - Lembro-me de quando brincavam no palácio! Ele saía imitando um cão (ao público) latindo, assustando todos pelos corredores.
Alexandre - Eu sou o culpado disso, é tudo minha culpa... (abraça o corpo de Hefestiã)
Ptolomeu- (frio, sem qualquer emoção) Infelizmente houve uma negligência, o médico deixou-o sozinho para ir ao Teatro.
Alexandre- O que?!
Leonato- Foi isso mesmo, talvez tenha pensado que não haveria perigo, mas logo que Hefestiã ficou sozinho...
Alexandre- Encontrai aquele miserável e executem-no! (o médico que estava encolhido no canto é pego pelos guardas)
Médico- (assustado) Meu senhor, eu não tenho...
Alexandre- Cala-te maldito! Que seja executado imediatamente! (Alexandre enlouquecido assume o centro da cena) Levem-no daqui! (à Leonato) Mande uma delegação ao oráculo para perguntar se é permitido oferecer sacrifícios a Hefestiã como herói (num frenesi à Ptolomeu) Mande embalsamar o corpo e levá-lo a Babilônia (à Roxana) Mande lavar o palácio e colocar centenas de flores, que os corredores pareçam grandes jardins. Vamos mexam-se!
Ptolomeu- Alexandre, eu acho que deveríamos....
Alexandre- (gritando) Quieto, o rei aqui sou eu!
Ptolomeu- Eu só pensei que isso é...
Alexandre- Quer ser chicoteado? Ou prefere ser transpassado por sua própria espada? Seu sangue vai lavar as escadarias do meu palácio! Vá, faça o que eu mandei! (Ptolomeu num momento o olha com ódio, mas depois anui com a cabeça e obedece. Alexandre grita ordens desconexas e as pessoas correm de um lado a outro para executar as ordens, enquanto isso vão retirando o corpo de Hefestiã. Às vezes Alexandre grita, outras chora, outras ainda ri como se fosse uma festa, na confusão Dionísio dá-lhes uma taça com algo e ele bebe de um gole só, jogando a taça de volta em Dionísio. Este o ergue pelo colarinho apenas os dois estão em cena)
Alexandre – Como se atreve a tocar-me com todo o limbo que carrega em si?
(Dionísio esbofeteia-o)
Alexandre – Víbora vais morrer escravo!
Dionísio – Não podes matar-me, conheço teus segredos, este cálice limpará seu corpo e sua alma.
Alexandre – Quem és?
Dionísio – Alguém tão próximo de ti, em carne e osso.
Alexandre – Quem és? (Dionísio nada fala) (gritando) Quem és?
Dionísio – Logo nos veremos no Olimpo
Alexandre – Serás tu o grande oráculo que me vigiava passo a passo. Se és mesmo quem diz, responde-me quem matou meu pai?
Dionísio – Se a todas as perguntas dos homens se respondesse com palavras, o mundo nos seria revelado em um único dia. Onde está a inteligência que te desenvolveu Aristóteles e a parte tua dos deuses? Quer saber? Sou quem pensas que sou.
Alexandre – (gritando) Faça de mim a tua vontade. (Senta-se ficando sozinho com um olhar perdido. Ptolomeu e Leonato entrando). Eu sou o sacrifício. ( Dionísio deita-o novamente e continua escrevendo)
Leonato- Não entendo direito essa manifestação de dor tão intensa.
Ptolomeu- Você é muito ingênuo Leonato. Eles eram muito mais do que meros amigos.
Leonato- Como assim?
Ptolomeu- Deixa pra lá. Alexandre está criando uma nova religião no seu novo mundo. Hefestiã morreu, e ele quer que seja o primeiro desses heróis, que viva no mito. Ele já começou a nos transformar em seres lendários.
Leonato- Mas Ptolomeu, ele morreu de indigestão, não vejo nada de heróico nisto.
Ptolomeu- (Dando um tapa na nuca de Leonato) É exatamente por isso que está aprontando para ele uma cerimônia fúnebre tão suntuosa. Afinal é justamente isso que ficará na lembrança de todos. A dor de Alexandre pela morte de Hefestiã é a mesma de Aquiles pela morte de Pátroclos.
Alexandre – (gritando, Acordando) Aquiles! Sou Pátroclos! (Volta a adormecer)
Ptolomeu – Não importa como Hefestiã morreu, o que importa é como ele viveu: um grande guerreiro, um grande amigo que morreu num momento de grande alegria para Alexandre.
Leonato- Mas isso não muda nada. Que ele morreu de indigestão morreu.
Ptolomeu- (dá outro tapa em Leonato) Não sei como você consegue andar e pensar ao mesmo tempo! (mata Leonato)
Mudança de cena, funeral de Hefestiã , intextual, Alexandre corre pelos corredores com gestos enlouquecidos arrancando os cabelos, Alexandre está diante do corpo de Hefestiã que começa a queimar na pira
Ator 1 - Me vejo ainda menino, no pátio do palácio, trocando um dente com um amigo que acabava de conhecer.
Alexandre - “Até a morte Hefestiã?”
Ator 2 - Até a morte você respondeu ( pega no dente que está em seu pescoço )
Alexandre - Arranco essa corrente e devolvo o penhor da nossa amizade,
Ator 1 - para que seja dissolvido no vendaval de fogo que te envolve.
Ator 3 - Você é o primeiro amigo, o primeiro e mais querido amigo que estará sempre em meu coração, unido a mim agora somente em meus sonhos. Vai amado, leva consigo minhas lágrimas que se perdem nas suas cinzas levadas pelo vento ( atira o dente, Alexandre tem uma vertigem e é amparado por Ptolomeu )
Ptolomeu- Vou pedir que te levem ao palácio.
Alexandre- Não, passarei a noite aqui.
Ptolomeu- Deverias descansar, cuidar da saúde.
Alexandre- Não amigo, não tenho tempo. Já que Hefestiã morreu penso em matar eu mesmo, os outros amigos sobretudo aquele que neste momento me olha nos olhos, pois ninguém mais deverá olhar o meu olhar ( todos saem, Alexandre fica só olhando o fogo que queima, e assim como fez em torno do túmulo de Pátroclos o que Aquiles havia feito séculos antes, começa a dançar em volta da pira, nu, freneticamente, até cair exausto, Dionísio o observa)
Dionísio - Estou aqui, você também... Me permita ser teu espelho essa noite, cantar em mim o teu encanto, tua estranheza, meu espanto... é preciso recomeçar no caminho que vai pra dentro, confiar no invisível, na busca de si mesmo... tudo é uma grande brincadeira, cada drama é só o nosso modo de ver. ( acaricia a fronte de Alexandre causando-lhe um arrepio, entra Leptine e abraça Alexandre vendo que ele arde em Febre, os outros começam a chegar. Alexandre acorda )
Alexandre- ( com uma voz quase inaudível ) Quero água... (Roxana toma o lugar de Leptine e lhe dá a água )
Roxana – Tenho aqui seu presente, o teu filho o teu herdeiro.
Dionísio – Filho de Bacante fria. (Anotando)
Roxana – Como?
Dionísio – Eu, sou filho de Bacante. (Anotando)
Roxana – Alguém falou, ouço vozes.
Dionísio – Somos todos filhos da PUTA! (Anotando)
Ptolomeu- ( sentenciando ) O rei está morrendo.
(Todos em volta, Dionísio observa Olímpia em outro espaço fazendo adivinhações)
Olímpia- ( tremula ) Nada lhe peço, em nada lhe incomodo nas minhas preocupações pois minhas forças sempre bastaram para cuidar dele, lhe imploro agora, quase sem forças, salva meu filho!
Dionísio- ( Interagindo) Não posso.
Olímpia- És um deus! Tudo podes!
Dionísio- Não posso impedir nada, isso está escrito a muito tempo, desde o teu sonho.
Olímpia- Alexandre não pode desaparecer como fumaça ao vento. Ele é a tua presença..
Dionísio- Tudo tem seu começo, seu meio e seu fim.
Olímpia – És um Deus miserável!
Alexandre- ( Delirante ) Mãe pássaros bicam uns aos outros e caem do céu é um pressagio, Hefestiã aperte minha mão.
Hefestiã - OFF: Entre as portas do visível e do invisível, fica o reino das coisas verdadeiras, que carregamos como um tesouro no coração, laços inquebráveis de um amor insuperável, mãos que se selam como guardiãs em nossa caminhada... fantasmas familiares, como guias, como forças de proteção... o tempo não vale nada, é pó na estrada da evolução.
Olímpia- filho!!!
Olímpia – Não vás, volta para mim eu te peço!
Aristóteles e os outros- Estamos aqui Alexandre, seus companheiros de mil aventuras, os homens de ferro que subjugaram o Nilo, o Tigre e o Eufrates, até a Índia, veja os rostos marcados pelo gelo e queimados pelo deserto, nossas faces molhadas de lágrimas derramadas por amor a ti. (Esta fala é feita como se Aristóteles ensaiasse um coro Grego)
Dionísio-( Se dirigindo ao público) ( depois de alguns instantes ) Acabou... Alexandre morreu... (Põe duas moedas sobre os seus olhos e enrola o papiro)
Leptine - Quem acompanhá-lo, os pulsos cortarei, aos pés de tua cama, Aristóteles é o culpado ele o envenenou.
Artemísia ( Entrando) – Não houve coragem para salvar a tua família. Destruída, aniquilada, sem piedade por causa de um tratado de partilha. Que horror! A tua mulher, a tua mãe, o teu filho, todos mortos... A sede de poder seca a alma humana, transformando-a em monstros. Ainda bem que Alexandre morreu, pois parte dele, Hefestiã já tinha ido. Ele morreu de melancolia e tristeza. ( sai)
Aristóteles – Chegou a hora da turma reunir-se de novo, escrevamos para ele uma boa história para ser representada num país de Bacantes, no futuro, que tenham em sua bandeira o verde da oliveira, o amarelo ouro do seu reino e o azul do céu e do mar maior que o mediterrâneo, que em sua planície paire o Olimpo festivo dos Deuses. Isto é a prova de que não o envenenei, pois eu mesmo o imortalizei. (Como se comandasse um desfile, um coro.)
TODOS – Chegou a hora de fecharmos os olhos, e quando acordarmos estaremos mais uma vez todos juntos, todos jovens e bonitos como então, para seguirmos adiante contigo, e cavalgarmos ao teu lado para a última aventura. E desta vez... para sempre, no país do carnaval. ( entra a bateria)
CENA 22
EPÍLOGO (Dionísio e Alexandre estao diante de si, o primeiro venda os olhos do segundo)
Dionísio – Diante de ti, podes ver uma planície sem fim? Coberta de flores? E ouvir um cão que late, mas não é o ladrar sombrio de Cérbero, o cão do Hades, é... Hefestiã... Vem correndo como louco de felicidade. Como no dia que brincavam pela primeira vez e trocaram os dentes. Ele está sorrindo, feliz, vindo te abraçar... Espere... Agora ouça também no infinito. Dessas terras o trovejar de um galope... O ressoar de um relincho... ( sorrindo ) é ele tal como um alazão... lá está Bucéfalo que vem ao seu encontro com a crina ao vento, ele te deixa subir na sua garupa com Hefestiã... e tu esta gritando “Em frente Bucéfalo”, e como um fogoso Pégaso ele está se lançando em disparada rumo ao horizonte, rumo a uma luz infinita...
